Como salvar a ave mais ameaçada do país?


O mutum-de-alagoas, dizimado pela caça e pela expansão da cana, ganha agora uma nova chance de sobreviver.

Ele parece uma galinha gorda. É abobalhado de tão manso. E desconhecido de boa parte dos brasileiros. Apesar da pouca fama, o mutum-de-alagoas (Pauxi mitu), ave de penugem preta, bico avermelhado e orelha pelada, teve uma das trajetórias mais tumultuadas da biodiversidade dos trópicos. Superou o equívoco dos cientistas, que por centenas de anos o confundiram com um animal parecido. Enfrentou a pressão dos caçadores, ávidos por sua carne sabidamente saborosa. Resistiu à devastação das matas onde vivia. “A espécie passou por todas as pragas possíveis”, afirma o biólogo Luís Fábio Silveira, curador das coleções ornitológicas do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP). Extinto na natureza, o mutum sobreviveu e procriou em cativeiro. Os 121 remanescentes vivem hoje em criadouros de duas cidades mineiras. É um dos animais mais ameaçados do mundo.

A ave, nativa da Mata Atlântica nordestina, foi encontrada no começo do século XVII, no período de colonização holandesa da região. O naturalista alemão Georg Marcgrave, da expedição científica de Maurício de Nassau, registrou o mutum numa xilogravura. A semelhança com um parente amazônico, o mutum-cavalo (Pauxi tuberosa), confundiu os cientistas. Durante mais de 300 anos, o mutum-de-alagoas foi considerado o mesmo animal ou uma subespécie. A confusão só acabou em 1951, quando o ornitólogo Olivério Pinto identificou características que definiam o mutum-de-alagoas como uma espécie diferente.

A próxima missão para o mutum herói de Alagoas é reaprender a viver na natureza: desde comer sozinho até cruzar e fugir dos predadores. Ele precisará de áreas grandes (e contínuas) de mata encorpada, árvores frugíferas e, acima de tudo, da segurança de que seus vizinhos estão interessados em protegê-lo. Nove usinas de Alagoas, em cujas propriedades ainda há fragmentos de Mata Atlântica, comprometeram-se com o Ministério Público a replantar floresta. Até 2018, suas nascentes, seus rios e seus açudes terão de ser recuperados. “As usinas precisam do marketing verde, e o mutum de ajuda”, afirma Sônia Roda. Ela integra um comitê criado para proteger a espécie que reúne ONGs, criadores de ave e usineiros. A reintrodução deverá ocorrer em cerca de três anos, quando os criadores tiverem pelo menos 300 animais de sangue puro. Aí eles selecionarão os casais mais aptos a voltar para a natureza.

O movimento de resgate chegou também à população comum e às escolas. As crianças, que nunca viram o bicho ao vivo, estudam e fazem peças de teatro sobre o mutum, inspiradas pela campanha “Vamos trazer este alagoano de volta”.

Fonte: Época - Editora Globo
Foto: João Marcos Rosa / Nitro

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