Como proteger um dos pássaros mais raros do Brasil?


Só sobraram 50 indivíduos da saíra-apunhalada. Espécie está criticamente em perigo.

É difícil ver a saíra-apunhalada (Nemosia rourei). Esse pequeno pássaro só consegue ser avistado uma ou duas vezes por ano. Isso não acontece por ele ser tímido, mas sim por ser raro. A saíra-apunhalada está extremamente ameaçada de extinção, e precisa da criação de uma área protegida para poder se recuperar.

No passado, a saíra-apunhalada se espalhava pelo Sudeste do Brasil, chegando a Minas Gerais e ao Rio de Janeiro. O desmatamento da Mata Atlântica e a fragmentação das florestas em que ela estava acostumada a viver dizimaram a espécie, a ponto de pesquisadores acreditarem que ela estava oficialmente extinta. Felizmente, ela foi redescoberta em 1998, no Espírito Santo. Mas não há muito o que comemorar. Hoje, apenas 50 indíviduos da saíra-apunhalada ainda existem na natureza. Por isso, ela é classificada como "criticamente em perigo" pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Reverter essa situação não será fácil. Segundo o biólogo Edson Ribeiro Luiz, da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (Save-Brasil), mudar o status de ameaça dessa ave, no curto prazo, é muito difícil. "O momento é garantir que os poucos indivíduos que restaram continuem vivos e tenham seu habitat protegido. É um esforço contra o tempo proteger o que sobrou", diz.

A única forma de conseguir isso é com o comprometimento de vários setores da sociedade. Essa mobilização existe, apesar de ainda ser um pouco tímida. O governo federal está preparando um plano nacional para as aves da Mata Atlântica, que deve incluir ações para a saíra-apunhalada. Um grupo privado do Espírito Santo está em processo de criar uma reserva florestal privada para proteger o pássaro, e também há ONGs e pesquisadores estudando a situação. Mas o mais importante para a proteção da espécie é a criação de uma área protegida no Espírito Santo.

Segundo Ribeiro, o governo do Espírito Santo tem um projeto para criar uma unidade de conservação estadual na Mata de Caetés, o que ajudaria a proteger os poucos indivíduos sobreviventes. "A criação de uma unidade de conservação na região passa logicamente por uma decisão política. Já houve momentos em que esteve perto de acontecer e depois retrocedeu. Tecnicamente, dentro dos órgãos estaduais, está se finalizando uma nova proposta para ser encaminhada ao governador", diz.

A expectativa é que a unidade de conservação seja criada ainda no começo de 2016. Será um marco importante para a saíra-apunhalada, mas é só o começo do trabalho. Depois, será preciso investir em ações de restauração, permitir que trechos florestais se conectem e aumentar a cobertura vegetal de Mata Atlântica. Quem sabe assim um dos pássaros mais raros do país se recupere e volte a povoar o céu do Espírito Santo.

Fonte: Bruno Calixto - Época
Foto: Gustavo Magnago/SAVE-Brasil

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